Perfis criminosos estão usando o TikTok como porta de entrada para divulgar material de abuso sexual infantil e direcionar interessados a espaços no Telegram onde esse conteúdo é comercializado, segundo investigação publicada pelo g1 nesta sexta-feira (25). O veículo acompanhou por semanas mais de 30 perfis e identificou ao menos 35 links relacionados à prática criminosa.
A divulgação aparece principalmente em comentários de vídeos aparentemente comuns. Em vez de fazer referências explícitas, os perfis utilizam códigos e linguagem disfarçada para tentar escapar dos sistemas automáticos de moderação das plataformas.
O g1 decidiu não divulgar os termos usados pelos criminosos justamente para evitar que a reportagem servisse como caminho para localizar o conteúdo ilegal. Esta matéria segue o mesmo cuidado.
TikTok funciona como porta de entrada
Segundo o monitoramento, muitos dos vídeos utilizados para atrair interessados sequer tinham relação direta aparente com abuso sexual infantil.
O elemento comum estava nos comentários, onde contas ligadas ao esquema indicavam formas de entrar em contato ou migrar para outras plataformas.
Em alguns casos, usuários que demonstravam interesse também recebiam respostas de perfis diferentes daquele que havia publicado o vídeo original. O objetivo, segundo a apuração, era levar a conversa para ambientes mais fechados, principalmente no Telegram.
A dinâmica evidencia uma dificuldade crescente das plataformas: mesmo quando determinados termos são bloqueados, os envolvidos passam a adotar novas expressões, abreviações ou códigos para tentar contornar a fiscalização.
g1 encontrou ao menos 35 links
Durante o período de monitoramento, o g1 identificou ao menos 35 links divulgados no TikTok que levavam a espaços relacionados à venda desse tipo de material.
A maior parte direcionava para o Telegram.
A reportagem constatou ainda o uso de chats privados, automações e páginas internas para intermediar o contato entre vendedores e interessados. Para não facilitar a reprodução do esquema, detalhes técnicos de acesso e negociação não são reproduzidos aqui.
Em pelo menos um dos ambientes verificados, usuários eram incentivados a divulgar novos links em outras redes em troca de vantagens dentro do próprio esquema, ampliando a circulação do material ilegal.
Comentários aparecem em vários idiomas
A maior parte dos comentários encontrados pelo g1 estava em espanhol, mas também havia diversas mensagens em português.
Não é possível determinar com segurança onde todas essas contas estão localizadas, porque o TikTok não exibe publicamente o país de origem de cada perfil.
Uma ferramenta externa de estimativa consultada pela reportagem apontou concentração de parte das contas na Europa, especialmente em países como Espanha, Portugal e Polônia, mas esse dado não equivale a uma localização confirmada dos usuários.
Plataformas adotam bloqueios, mas criminosos mudam de estratégia
O g1 encontrou casos em que o próprio TikTok bloqueava determinadas buscas ao detectar relação com abuso sexual infantil.
Ao mesmo tempo, outras combinações de termos ainda conseguiam levar a publicações ou comentários não barrados.
Esse processo de adaptação constante é um dos principais desafios da moderação: quando uma palavra ou padrão passa a ser reconhecido, os criminosos alteram a linguagem utilizada para continuar promovendo o material.
O problema não se limita ao TikTok. A investigação mostra como diferentes plataformas podem ser usadas em etapas distintas de uma mesma rede criminosa: uma rede social serve para divulgação e atração, enquanto ambientes privados são usados posteriormente para comunicação e distribuição.
TikTok afirma que remove conteúdo e bane contas
Procurado pelo g1, o TikTok afirmou que não permite conteúdos relacionados à exploração e ao abuso sexual de crianças e adolescentes.
A empresa disse que remove esse tipo de publicação, bane permanentemente as contas envolvidas e utiliza tecnologias de detecção, denúncias feitas pelos usuários e parcerias com organizações especializadas para identificar violações.
Segundo a plataforma, casos detectados também podem ser comunicados ao National Center for Missing & Exploited Children (NCMEC), organização norte-americana voltada à proteção de crianças desaparecidas e exploradas.
Telegram diz adotar política de tolerância zero
O Telegram também afirmou que a distribuição de material de abuso sexual infantil é proibida em seus termos de serviço.
Segundo a empresa, a plataforma combina denúncias de usuários, moderação humana e sistemas automatizados para identificar e remover esse tipo de conteúdo.
O serviço mantém ainda um sistema de comparação de imagens com bancos de dados de arquivos já identificados como ilegais, incluindo referências fornecidas pela Internet Watch Foundation.
Na resposta enviada ao g1, o Telegram afirmou ter removido centenas de milhares de grupos e canais relacionados a material de abuso sexual infantil em 2026.
Casos registrados aumentaram no Brasil
O problema também aparece nas estatísticas nacionais.
Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 4.063 vítimas relacionadas a crimes de produção, posse ou distribuição de material de abuso sexual infantil em 2025, número 25,3% maior do que o registrado no ano anterior.
O levantamento chama atenção ainda para a idade dos autores identificados.
Entre os registros com informação disponível, 34,2% dos autores eram adolescentes. O dado reforça que esse tipo de violência digital também pode envolver jovens na produção, circulação ou compartilhamento ilegal de conteúdo.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública destaca que os números oficiais representam apenas uma parcela do fenômeno, já que uma grande quantidade desse material circula em ambientes digitais sem chegar ao conhecimento das autoridades.
Redes sociais podem facilitar aliciamento
Para especialistas ouvidos pela reportagem, a facilidade com que usuários podem ser direcionados de uma plataforma para outra mostra como redes sociais podem ser usadas também em processos de aliciamento, exploração e circulação de conteúdo criminoso.
Cauê Martins, coordenador de Infância e Juventude do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, chamou atenção para a rapidez com que esse tipo de material pode ser encontrado a partir de redes de grande alcance.
A preocupação é maior porque plataformas como TikTok e Telegram têm milhões de usuários e presença significativa entre adolescentes.
Orientação é não acessar, salvar ou compartilhar
Órgãos de proteção alertam que, ao encontrar material suspeito de abuso ou exploração sexual infantil, a pessoa não deve baixar, salvar, encaminhar nem compartilhar o conteúdo, mesmo com a intenção de denunciá-lo.
A recomendação é utilizar as ferramentas de denúncia da própria plataforma e comunicar o caso pelos canais oficiais.
No Brasil, denúncias podem ser feitas ao Disque 100, serviço gratuito do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, disponível 24 horas por dia. As denúncias podem ser anônimas.
A SaferNet Brasil também mantém um canal específico para denúncias de crimes cibernéticos. Segundo a organização, relatos envolvendo abuso e exploração sexual infantil na internet são analisados em cooperação com órgãos como o Ministério Público Federal.
Casos também podem ser levados à Polícia Civil e, quando houver repercussão internacional, à Polícia Federal.
Investigação expõe desafio para plataformas
A apuração do g1 mostra que o desafio não é apenas retirar publicações explícitas, mas também identificar redes organizadas que usam códigos, comentários e migração entre plataformas para manter o esquema funcionando.
Mesmo com sistemas automáticos de detecção e milhares de contas removidas, os grupos alteram rapidamente a forma de divulgação para continuar alcançando novos usuários.
O caso reforça a necessidade de cooperação entre plataformas, autoridades policiais e organizações de proteção à infância, além de mecanismos mais rápidos de identificação e remoção desse tipo de conteúdo.
Para especialistas, impedir que redes sociais de grande alcance funcionem como porta de entrada para material de abuso sexual infantil é uma das etapas centrais no enfrentamento à exploração de crianças e adolescentes no ambiente digital.

