Quando recebeu o diagnóstico de câncer de pâncreas, aos 42 anos, Edgard de Luna ouviu dos médicos que suas chances de sobrevivência eram mínimas. O adenocarcinoma pancreático, considerado um dos tumores mais agressivos da medicina, já havia avançado a ponto de exigir um tratamento complexo e cercado de incertezas.
O que parecia uma sentença devastadora acabou se transformando em um caso raro de sucesso terapêutico. Oito anos após o diagnóstico, Edgard não apresenta qualquer sinal detectável da doença. O resultado é tão incomum que passou a ser estudado por especialistas e deverá ser objeto de publicação científica.
A história começou de forma aparentemente banal. Durante meses, Edgard conviveu com dores persistentes no estômago e recebeu diferentes diagnósticos, incluindo gastrite, infecção por Helicobacter pylori e até problemas musculares relacionados à prática esportiva. Nenhum tratamento trouxe melhora.
Foi apenas quando uma médica decidiu aprofundar a investigação, após quase três meses de sintomas, que uma tomografia revelou uma alteração no pâncreas. Horas depois, ele já estava internado.
O tumor encontrava-se em uma região delicada, próximo a uma importante artéria abdominal. A localização tornava a cirurgia imediata arriscada e colocava o caso em uma zona intermediária entre os tumores operáveis e os considerados inoperáveis.
Diante do cenário, a equipe médica optou por iniciar um tratamento com quimioterapia antes da cirurgia. Durante meses, Edgard enfrentou sessões intensas do tratamento, conciliando consultas, exames e trabalho.
Ao final de 12 ciclos, os médicos observaram redução suficiente do tumor para tentar a remoção cirúrgica.
A operação durou nove horas e exigiu uma das intervenções mais complexas da cirurgia abdominal. O procedimento foi considerado bem-sucedido, com retirada completa do tumor visível.
Mas o maior desafio ainda estava por vir.
Pouco tempo após a cirurgia, exames de acompanhamento identificaram uma nova lesão próxima à área operada. A suspeita era de recidiva da doença.
Como uma nova quimioterapia não era recomendada naquele momento, os médicos decidiram apostar em uma abordagem pouco utilizada para esse tipo de câncer: a ablação por radiofrequência.
O procedimento consiste na introdução de uma agulha guiada por imagem até o local da lesão. A ponta do equipamento produz calor em alta frequência, destruindo as células tumorais sem necessidade de remoção cirúrgica.
A expectativa da equipe era apenas controlar temporariamente a doença.
O resultado, porém, surpreendeu.
Nos exames realizados nos meses seguintes, a lesão desapareceu completamente. Desde então, não houve qualquer evidência de retorno do câncer.
Segundo os especialistas que acompanham o caso, a combinação de fatores favoráveis foi determinante para o desfecho incomum. A recidiva ocorreu em um único ponto, foi identificada precocemente e estava localizada em uma região acessível para o procedimento.
Mesmo assim, os médicos reconhecem que ainda não existe uma explicação definitiva para o resultado alcançado.
Atualmente com 50 anos, Edgard mantém acompanhamento periódico, leva uma vida normal e convive apenas com algumas sequelas leves do tratamento.
Recentemente, realizou uma viagem a Portugal para cumprir uma promessa feita durante o período mais difícil da doença.
A experiência também transformou sua forma de enxergar a vida.
Depois de enfrentar um diagnóstico considerado um dos mais difíceis da oncologia, ele afirma que muitos dos problemas cotidianos perderam a dimensão que antes pareciam ter.
Enquanto a medicina busca compreender os motivos por trás da sua recuperação, Edgard segue vivendo aquilo que, há oito anos, parecia praticamente impossível: uma vida sem sinais do câncer.

