Aos 17 anos, a estudante cearense Rute Conceição Silva Rodrigues transformou um sonho que começou ainda no Ensino Fundamental em uma conquista internacional. Moradora do Pirambu, em Fortaleza, e aluna da rede pública estadual, ela foi aprovada em quatro universidades no exterior, entre elas Harvard e Cambridge, duas das instituições de ensino superior mais conhecidas do mundo.
Rute também conquistou vagas na Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos, e na New York University Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. As quatro aprovações são para o curso de Psicologia.
E a lista ainda pode aumentar.
A estudante se candidatou a 20 universidades internacionais e aguarda a resposta de outras 16 instituições.
Filha de uma trabalhadora que atua como camareira e faz serviços de faxina e que não teve oportunidade de ser alfabetizada, Rute atribui parte da conquista ao incentivo recebido dentro de casa e na escola.
Apesar das aprovações internacionais, ela ainda mantém outro sonho: prestar o Enem, entrar em Medicina na Universidade Federal do Ceará (UFC) e se tornar neurocirurgiã.
AS QUATRO APROVAÇÕES
Harvard University — Estados Unidos
Pennsylvania State University — Estados Unidos
University of Cambridge — Inglaterra
New York University Abu Dhabi — Emirados Árabes Unidos
Curso: Psicologia
Idade de Rute: 17 anos
Da escola pública de Fortaleza para o mundo
Rute estuda na Escola de Ensino Médio Dr. César Cals, localizada no bairro Farias Brito, em Fortaleza.
A instituição possui mais de cinco décadas de história e registra números expressivos de ingresso no ensino superior. Somente em 2026, foram mais de 250 aprovações de estudantes.
Foi nesse ambiente que Rute recebeu apoio para desenvolver projetos científicos e construir um currículo capaz de disputar espaço em universidades estrangeiras.
A jovem afirma que nunca foi desencorajada pela escola a tentar caminhos diferentes dos processos seletivos tradicionais brasileiros.
Professores e gestores auxiliaram nas orientações necessárias para as candidaturas internacionais.
Sonho começou ainda no 9º ano
A ideia de estudar fora do Brasil surgiu quando Rute ainda estava no 9º ano do Ensino Fundamental.
Ela começou a acompanhar pelas redes sociais vídeos e relatos de jovens que estudavam em universidades internacionais.
A partir daí, decidiu pesquisar por conta própria como funcionavam os processos seletivos.
Descobriu que, além do desempenho escolar, universidades norte-americanas e europeias costumam analisar redações, atividades extracurriculares, projetos, entrevistas, proficiência no idioma e outros aspectos da trajetória pessoal do candidato.
O que inicialmente parecia distante passou a se transformar em um projeto.
Foram 20 candidaturas e cerca de 60 redações
O processo ganhou forma em 2025.
Rute decidiu enviar candidaturas para 20 universidades em diferentes países.
O trabalho foi intenso.
Cada seleção exigia redações específicas sobre sua história, interesses, projetos, objetivos e experiências.
No total, a estudante escreveu cerca de 60 textos.
Também precisou fazer o SAT, exame utilizado por diversas universidades norte-americanas como parte do processo de admissão, e participar de entrevistas.
O CAMINHO ATÉ AS APROVAÇÕES
20 universidades escolhidas
4 aprovações já recebidas
16 resultados ainda aguardados
Cerca de 60 redações
Realização do SAT
Entrevistas com representantes das universidades
Preparação em inglês
Participação em iniciação científica
Pé-de-Meia ajudou a pagar preparação e inscrições
Participar de processos seletivos internacionais também exige recursos financeiros.
As candidaturas de Rute custaram aproximadamente US$ 800 em taxas.
A estudante conseguiu pagar parte das despesas utilizando dinheiro que havia economizado do programa federal Pé-de-Meia.
Os recursos também ajudaram a custear cursos preparatórios complementares.
Rute destacou a importância do programa para tornar possível uma preparação que normalmente representa uma barreira financeira para estudantes de famílias de baixa renda.
Dois anos estudando inglês no CCI
Outro passo decisivo foi o domínio do inglês.
Durante dois anos, Rute estudou no Centro Cearense de Idiomas (CCI), na unidade Kennedy, equipamento público voltado à formação de estudantes da rede estadual em línguas estrangeiras.
Paralelamente, fez cursos adicionais para se preparar para as provas e entrevistas.
A fluência foi essencial para participar de seleções conduzidas integralmente em inglês e produzir dezenas de textos destinados às universidades.
REDE PÚBLICA NA TRAJETÓRIA
A preparação de Rute passou por:
• Escola de Ensino Médio Dr. César Cals;
• Centro Cearense de Idiomas;
• projeto de iniciação científica;
• recursos economizados do Pé-de-Meia;
• apoio de professores e gestores da rede pública.
Pesquisa científica virou diferencial
Rute considera que um dos principais diferenciais de sua candidatura foi um projeto de iniciação científica desenvolvido durante o Ensino Médio.
Ao lado de outros estudantes, ela participou de uma pesquisa voltada à análise do discurso de criadores de conteúdo relacionados ao universo escolar.
O projeto nasceu dentro da própria escola.
A pesquisa ultrapassou os muros da instituição e foi apresentada em feiras científicas em Fortaleza e também no Paraguai.
Em novembro, o trabalho deverá ser apresentado novamente em um evento em Recife, Pernambuco.
Para Rute, essa experiência acadêmica ajudou a mostrar às universidades que sua trajetória ia além das notas obtidas em sala de aula.
Mãe não teve oportunidade de ser alfabetizada
A história familiar tornou a conquista ainda mais significativa.
Rute mora com a mãe e o irmão mais novo.
A mãe trabalha como camareira e também realiza serviços de faxina. Ela não teve oportunidade de ser alfabetizada.
Mesmo sem ter tido acesso à educação formal, sempre incentivou os filhos a estudar e aproveitar as oportunidades que surgissem.
Segundo Rute, a mãe costuma lembrá-los de que eles têm uma chance que ela própria não teve.
A estudante afirma que sua futura formação universitária não será uma conquista individual, mas de toda a família.
UMA CONQUISTA DE GERAÇÕES
A mãe de Rute não teve oportunidade de ser alfabetizada.
Ainda assim, fez da educação dos filhos uma prioridade.
Para a estudante, o futuro diploma representará o esforço de toda a família.
Pirambu está no começo dessa história
Rute cresceu no Pirambu, um dos bairros mais tradicionais e populosos de Fortaleza.
Sua trajetória começou longe dos grandes centros universitários internacionais que agora disputam sua escolha.
Foi da escola pública cearense que ela construiu o currículo que abriu as portas de instituições nos Estados Unidos, Inglaterra e Emirados Árabes Unidos.
A história chama atenção justamente por mostrar que processos seletivos internacionais, muitas vezes vistos como inacessíveis, também podem ser alcançados por estudantes da rede pública quando existem preparação, informação e oportunidades.
Harvard ainda não é decisão definitiva
Apesar da repercussão provocada pela aprovação em Harvard, Rute ainda não decidiu onde pretende estudar.
Ela espera os outros 16 resultados antes de escolher.
Além disso, existe uma possibilidade capaz de mantê-la no Ceará.
Rute pretende fazer o Exame Nacional do Ensino Médio e disputar uma vaga em Medicina na UFC.
O sonho profissional da estudante é se tornar neurocirurgiã.
Medicina na UFC continua nos planos
A decisão chama atenção porque Rute poderia optar diretamente por uma das quatro universidades internacionais em que já foi aceita para Psicologia.
Mas Medicina continua sendo seu objetivo principal.
Caso consiga aprovação na UFC, permanecer no Ceará é uma possibilidade real.
A jovem diz considerar importante estudar no próprio estado e também ser valorizada por sua formação no Ceará.
E AGORA?
Rute ainda precisa decidir entre:
Psicologia no exterior, com quatro aprovações já conquistadas;
ou
Medicina na UFC, caso consiga a vaga pelo Enem.
Seu objetivo profissional é se tornar neurocirurgiã.
Uma história construída pela educação
Aos 17 anos, Rute ainda nem concluiu completamente a etapa escolar, mas já possui quatro possibilidades de formação em três países diferentes.
Sua trajetória reúne esforço pessoal, apoio familiar, ensino público, iniciação científica, aprendizagem de idiomas e políticas de permanência estudantil.
Do Pirambu às cartas de aprovação de algumas das universidades mais conhecidas do mundo, a conquista também carrega uma dimensão familiar.
A filha de uma mulher que não teve oportunidade de aprender a ler e escrever agora pode escolher entre Harvard, Cambridge, Penn State e NYU Abu Dhabi — enquanto ainda mantém vivo o sonho de entrar em Medicina na Universidade Federal do Ceará.
E a lista de aprovações talvez ainda nem tenha terminado.

