A campanha que levou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição e ao quarto mandato presidencial teve nas redes sociais um de seus capítulos mais marcantes. Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL), a candidatura petista reorganizou sua estratégia digital, ampliou a mobilização dos apoiadores e viu surgir um fenômeno que ultrapassou a barreira dos 10 milhões de participantes no WhatsApp: o “Exército do Lula”.
À frente da iniciativa estava o deputado federal André Janones (Rede-MG), que assumiu o papel de mobilizador digital da campanha e passou a distribuir diariamente as chamadas “missões” aos apoiadores.
Em poucas semanas, o canal saiu de centenas de milhares de seguidores para mais de 10 milhões, promoveu hashtags, impulsionou buscas no Google, direcionou engajamento para publicações e também convocou ações fora das redes.
A mobilização ocorreu paralelamente à recuperação eleitoral que terminou com Lula revertendo a derrota do primeiro turno e conquistando a vitória no domingo (25).
Do primeiro turno à reação
O desempenho da campanha petista nas redes já era alvo de críticas antes da primeira votação.
Enquanto a direita bolsonarista mantinha forte presença e capacidade de viralização nas plataformas digitais, aliados de Lula reconheciam dificuldades para competir nesse ambiente.
O próprio Janones vinha alertando durante a campanha sobre a vantagem digital do adversário.
O resultado do primeiro turno reforçou o sinal de alerta.
Flávio Bolsonaro terminou aquela etapa com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 45,16%.
A diferença era superior a 2,2 milhões de votos.
Foi nesse cenário que a campanha intensificou sua reorganização para o segundo turno.
QUADRO — A MUDANÇA ENTRE OS TURNOS
Primeiro turno
Flávio Bolsonaro: 47,03%
Lula: 45,16%
Segundo turno
Lula: cerca de 51,8%
Flávio Bolsonaro: cerca de 48,2%
Lula saiu de uma desvantagem superior a 2 milhões de votos para uma vitória de mais de 4 milhões.
Nasce o ‘Exército do Lula’
O canal ganhou força logo após o primeiro turno.
No início de outubro, ainda reunia menos de 1 milhão de seguidores. Em apenas dois dias, já se aproximava de 2 milhões.
Depois vieram sucessivas marcas.
Quatro milhões.
Cinco milhões.
Sete milhões.
Quase nove milhões às vésperas da eleição.
Na reta final, o grupo ultrapassou os 10 milhões de seguidores.
A dinâmica era baseada em orientações publicadas por Janones ao longo do dia.
Os participantes recebiam vídeos, textos e tarefas destinadas a ampliar a circulação de conteúdos relacionados à campanha.
QUADRO — O CRESCIMENTO
6 de outubro: cerca de 920 mil integrantes
7 de outubro: quase 2 milhões
13 de outubro: mais de 4 milhões
17 de outubro: 5 milhões
21 de outubro: mais de 7 milhões
Reta final: mais de 10 milhões
‘Missões’ movimentavam as redes
Janones utilizou a linguagem de “missões” para organizar a participação dos integrantes.
As tarefas incluíam interagir com determinadas publicações, compartilhar vídeos, pesquisar termos específicos no Google, promover hashtags no X e atrair novos participantes para o canal.
Algumas ações também saíram do ambiente digital.
Apoiadores foram convocados para manifestações, bandeiraços e atividades sincronizadas em diferentes cidades.
O objetivo declarado era ampliar o alcance dos conteúdos da campanha e disputar um ambiente digital no qual a direita havia construído forte presença nos últimos anos.
Vídeos chegaram a dezenas de milhões de visualizações
De acordo com levantamento citado pelo O Povo, o desempenho digital de conteúdos ligados à campanha melhorou consideravelmente durante o segundo turno.
Vídeos ultrapassaram a marca de 40 milhões de visualizações, enquanto as redes de Lula ganharam quase 2 milhões de novos seguidores no intervalo entre as duas votações.
Hashtags impulsionadas pelo grupo também apareceram entre os assuntos mais comentados do X, e pesquisas sugeridas aos integrantes chegaram às tendências do Google.
QUADRO — ALCANCE DIGITAL
• canal com mais de 10 milhões de seguidores;
• vídeos acima de 40 milhões de visualizações;
• quase 2 milhões de novos seguidores nas redes de Lula entre os turnos;
• hashtags entre os assuntos mais comentados;
• buscas coordenadas entre as tendências do Google.
Lula entrou na mobilização
O próprio presidente passou a participar mais diretamente da estratégia.
Em um vídeo divulgado durante o segundo turno, Lula convocou os apoiadores a entrarem no canal e estabeleceu como meta chegar a milhões de participantes.
A entrada do presidente na mobilização ajudou a acelerar o crescimento.
Quando o grupo se aproximava dos 5 milhões de seguidores, Janones chegou a afirmar que Lula havia prometido comprar um celular caso a marca fosse alcançada.
A brincadeira ganhou repercussão justamente porque Lula já declarou diversas vezes não ter hábito de utilizar telefone celular ou redes sociais pessoalmente.
Comunicação ficou mais direta
A experiência do “Exército do Lula” também representou uma mudança de linguagem.
Em vez de depender apenas de peças publicitárias tradicionais, a estratégia passou a privilegiar vídeos rápidos, gravações informais, mensagens diretas e conteúdos preparados para circulação imediata.
Janones defendia que Lula aparecesse mais em situações cotidianas e conversasse diretamente com os apoiadores.
A campanha passou ainda a trabalhar de maneira mais intensa com influenciadores, criadores de conteúdo e comunidades digitais.
Canal entrou na mira do TSE
O crescimento também provocou uma disputa jurídica.
A campanha de Flávio Bolsonaro questionou o funcionamento do canal no Tribunal Superior Eleitoral.
O então presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, chegou a determinar sua suspensão e solicitou análise técnica sobre os conteúdos publicados.
A área técnica do tribunal informou posteriormente não ter identificado informação falsa no material disponível para análise, embora tenha feito ressalvas sobre conteúdos apagados e sobre a dimensão da estrutura.
O funcionamento do canal passou por decisões divergentes dentro da própria Corte.
A campanha de Lula posteriormente registrou formalmente o “Exército do Lula” como canal oficial de comunicação eleitoral.
QUADRO — DISPUTA NO TSE
• campanha adversária questionou o canal;
• houve determinação de suspensão;
• decisão foi contestada dentro do próprio Tribunal;
• campanha registrou o canal oficialmente no TSE;
• mobilização continuou durante o segundo turno.
Mesmo internado, Janones manteve comunicação
A reta final também teve um episódio inesperado.
Depois do debate realizado pela Band, Janones sofreu uma arritmia cardíaca e precisou ser internado em São Paulo.
O deputado ficou na UTI sob monitoramento e teve o quadro controlado.
Mesmo durante a internação, publicou mensagens direcionadas aos participantes da mobilização.
Recebeu alta no dia seguinte e retomou as atividades da campanha.
Na reta final, participou ainda de uma transmissão prolongada nas horas que antecederam a abertura das urnas.
Mobilização digital encontrou mobilização nas ruas
As semanas de segundo turno não ficaram restritas à internet.
Ao mesmo tempo em que o “Exército do Lula” crescia no WhatsApp, apoiadores passaram a organizar atos em diferentes regiões do País.
Caminhadas, bandeiraços e grandes manifestações ocorreram em cidades como São Paulo, Fortaleza, Recife, Salvador, Brasília e Rio de Janeiro.
Uma das missões convocou apoiadores a utilizar verde e amarelo e símbolos nacionais, numa tentativa de recuperar as cores da bandeira brasileira como elementos de uma mobilização mais ampla.
A combinação entre ações digitais e manifestações presenciais passou a ser uma característica da campanha na reta final.
Lula cresceu 10,3 milhões de votos
Os números das urnas mostram o tamanho da recuperação eleitoral no período.
Lula conquistou aproximadamente 10,3 milhões de votos adicionais entre o primeiro e o segundo turno.
Flávio Bolsonaro acrescentou cerca de 3,7 milhões.
O presidente também cresceu em todos os estados e no Distrito Federal e conseguiu virar o resultado em mais de 200 municípios que haviam dado vantagem ao adversário na primeira votação.
Não é possível atribuir matematicamente esse crescimento a uma única ferramenta de campanha.
Especialistas em redes sociais, porém, apontaram durante o segundo turno que a mobilização digital ajudou a reanimar a militância e alterou a presença da campanha petista nas plataformas.
QUADRO — A RECUPERAÇÃO DE LULA
Votos adicionais entre os turnos: cerca de 10,3 milhões
Crescimento: registrado em todos os estados e no Distrito Federal
Viradas municipais: mais de 200
Resultado: reeleição para o quarto mandato presidencial
Lula agradece Janones após vitória
Quando a reeleição foi confirmada, a importância que a campanha atribuía à experiência digital apareceu no discurso de comemoração.
Ao lado de aliados, Lula agradeceu publicamente a André Janones pelo trabalho realizado durante o segundo turno.
O presidente se referiu ao deputado como “general”, numa referência direta ao “Exército do Lula”.
Janones se emocionou durante o reconhecimento.
A cena encerrou simbolicamente uma trajetória iniciada apenas algumas semanas antes, quando a campanha ainda tentava encontrar uma resposta para a vantagem digital do adversário.
De menos de 1 milhão a mais de 10 milhões
Em menos de três semanas, uma ferramenta criada para mobilizar apoiadores se transformou em uma das maiores estruturas digitais da campanha presidencial.
O “Exército do Lula” saiu de aproximadamente 920 mil participantes no início de outubro para mais de 10 milhões às vésperas da votação.
A experiência não explica sozinha uma eleição decidida por mais de 120 milhões de brasileiros, mas tornou-se um dos símbolos da reação da campanha entre os dois turnos.
Nesse mesmo período, Lula conquistou milhões de novos votos, aumentou sua presença digital, recuperou terreno eleitoral e protagonizou a primeira virada entre primeiro e segundo turnos de uma eleição presidencial desde a redemocratização.
Ao final, a campanha que entrou no segundo turno tentando reduzir uma desvantagem terminou com Lula reeleito, mais de 64 milhões de votos e o quarto mandato presidencial conquistado nas urnas.

