Uma estátua de 11 metros de altura em homenagem ao Diabo, instalada em uma propriedade particular em São Gonçalo do Amarante, na Região Metropolitana de Fortaleza, tornou-se centro de uma discussão sobre liberdade de crença e intolerância religiosa. A repercussão ganhou força nas redes sociais e chegou ao poder público depois de críticas e pedidos para que a estrutura fosse retirada.
A obra foi idealizada pela influenciadora e líder religiosa conhecida como Mãe Célia, que se apresenta como feiticeira e mantém no local um espaço dedicado às suas práticas religiosas. Segundo ela, aproximadamente R$ 100 mil foram investidos na construção da estátua, valor que teria saído integralmente de recursos próprios.
A instalação provocou reações principalmente de grupos cristãos e de internautas que consideram a representação ofensiva às suas crenças. Do outro lado, defensores da permanência da obra argumentam que a liberdade religiosa assegurada pela Constituição não pode ser aplicada apenas às religiões majoritárias.
Prefeitura afirma que construção é legal
Diante da repercussão, a Prefeitura de São Gonçalo do Amarante informou que a estrutura está localizada em propriedade privada e que não foram identificados elementos que justificassem sua retirada pelo Município.
A administração municipal também ressaltou a necessidade de respeito à liberdade religiosa. A controvérsia, portanto, não envolve apenas a aparência ou o simbolismo da escultura, mas os limites da intervenção do poder público diante de manifestações religiosas realizadas dentro da legalidade.
Mãe Célia também rebateu as críticas. Em declarações públicas, defendeu que vive em um Estado laico e possui o mesmo direito de professar sua fé que seguidores de qualquer outra religião. Ela afirmou ainda que respeita crenças diferentes da sua e reivindica o mesmo tratamento para suas práticas religiosas. A posição da Prefeitura em defesa da legalidade da obra e da liberdade de crença também repercutiu amplamente nas redes sociais.
Polêmica começou antes da estátua
Segundo a religiosa, os ataques não começaram com a construção da escultura. Antes disso, ela já teria recebido comentários preconceituosos por causa de outro espaço mantido na propriedade, conhecido como Casa dos Caixões, pintado de preto e utilizado para suas práticas de fé.
Com a construção da estátua, porém, a repercussão ultrapassou os limites do município. Fotografias e vídeos da estrutura circularam pelas redes sociais e provocaram milhares de comentários, tanto de apoio quanto de condenação.
Parte das críticas também confunde diferentes símbolos e tradições religiosas. A aparência da escultura levou internautas a compará-la a representações de Baphomet, embora a responsável pela obra afirme que a imagem foi construída como uma homenagem ao Diabo dentro de sua própria concepção religiosa.
Caso levanta discussão sobre Estado laico
A controvérsia também abriu espaço para uma discussão mais ampla: o direito à liberdade religiosa inclui crenças que provocam rejeição ou desconforto na maioria da população?
A Constituição brasileira assegura a liberdade de consciência e de crença e protege o livre exercício dos cultos religiosos. O princípio do Estado laico determina ainda que o poder público não deve privilegiar uma determinada religião em detrimento de outras.
Isso significa que discordar de uma crença, criticá-la ou não reconhecer seus símbolos como sagrados é diferente de tentar impedir seus seguidores de exercerem direitos garantidos às demais religiões.
A legislação brasileira também prevê punição para condutas de discriminação ou preconceito em razão da religião. O debate em São Gonçalo do Amarante ganhou relevância justamente porque coloca frente a frente a liberdade de expressão dos críticos e o direito de uma pessoa exercer e manifestar sua própria crença.
A repercussão da estátua mostra, assim, que a discussão ultrapassou a própria obra. O episódio passou a funcionar como um debate sobre pluralidade religiosa, tolerância e os limites da interferência do Estado nas manifestações de fé realizadas em espaços privados.

