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    Militares no front na Ucrânia são pessimistas sobre paz

    By Agência Cearenseabril 1, 2025 Mundo
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    Um homem sentado em uma cadeira em um ambiente com decoração militar. Ele usa um moletom verde e calças camufladas. Atrás dele, há uma bandeira da Ucrânia com um desenho de um esqueleto e um soldado. O ambiente contém uma mesa com equipamentos eletrônicos, como um computador, e várias peças de roupa militar penduradas nas paredes.
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    Enquanto o presidente americano, Donald Trump, e o líder russo, Vladimir Putin, negociam um cessar-fogo parcial para a Guerra da Ucrânia, tendo Kiev como coadjuvante, os militares ucranianos não veem nada de novo no front.

    Maksim Altair Holubok, chefe do Estado-Maior da 13ª Brigada, a Khartia, mostra-se cético sobre as perspectivas de um acordo de paz. “Não muda absolutamente nada no terreno. E é quase impossível. Imagine se fosse no seu país, um vizinho vem e diz: ‘Você precisa me dar quatro dos seus estados e abrir mão de todas as suas armas.’ Como você reagiria?”, diz Holubok à Folha. “Qualquer cessar-fogo parcial é uma oportunidade para o inimigo descansar, se rearmar e voltar mais forte.”

    A Brigada Khartia, que atua no norte da região de Kharkiv, perto da fronteira russa, enviou aos soldados um vídeo de um oficial, recomendando que não perdessem o foco devido às negociações entre ucranianos e russos. “Há muitas notícias negativas”, afirma o militar no vídeo. “Não usem muito as redes sociais, vocês devem focar suas tarefas específicas; outro jeito de não se distrair é exercício físico.”

    “Gostaria de estar otimista [com as negociações de paz]. Mas a realidade está aí. Os [drones]FPVs e os KABs [bombas guiadas russas, de 300 quilos]estão voando”, declara o paramédico Andrii, da 68ª Brigada, cuja área de atuação é Pokrovsk, no leste do país.

    Trump determinou suspensão de compartilhamento de inteligência e envio de recursos para a área militar após o bate-boca com Zelenski no Salão Oval da Casa Branca, no fim de fevereiro. A ajuda foi restabelecida após o presidente ucraniano aceitar um cessar-fogo parcial proposto pelo republicano —a Rússia fez uma série de exigências para aderir, e a situação ainda é incerta.

    Os militares ucranianos não admitem, em público, quão difícil seria lutar sem a ajuda militar americana, caso os EUA voltassem a cortá-la. Mas a maior parte da defesa antiaérea, por exemplo, é fornecida pelos EUA, o que impede mísseis e drones russos de matarem dezenas de civis por dia em Kiev e em outras cidades maiores.

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    O Starlink, satélite de baixa órbita, é instrumento essencial. Há algumas alternativas, mas não funcionam tão bem no campo de batalha, afirmam os militares. No início de março, o bilionário Elon Musk, dono da rede de satélites, afirmou no X, sua plataforma, que o Starlink era “a espinha dorsal do Exército ucraniano” e que “toda a frente de batalha dos ucranianos entraria em colapso se ele desligasse [os aparelhos]”.

    O arsenal de drones da Ucrânia, que compensa, em parte, a inferioridade em tropas e forças aéreas, depende pesadamente do Starlink para localizar e vigiar alvos, reagir a ataques e fazer a logística.

    A francesa Eutelsat está em negociações com a União Europeia para fornecer acesso adicional à Ucrânia. A empresa controla a única outra operação de satélites de órbita terrestre baixa de cobertura global, além da Starlink —com a diferença de que esta tem mais de 7.000 aparelhos, e os franceses cerca de 630.

    Para Andrii Zahorodniuk, ex-ministro da Defesa da Ucrânia, haverá impactos de um corte de ajuda militar americana, mas as forças ucranianas sobreviverão com ajuda europeia. “Há uma série de capacidades que são exclusivas dos Estados Unidos. Se cortarem completamente, será muito difícil. A Europa substituirá a maior parte disso, mas não tudo”, diz.

    Segundo ele, não é possível substituir toda a inteligência, então haveria problemas com alguns dos sistemas de defesa. Também haveria questões com a artilharia, porque grande parte vem dos Estados Unidos, e não é possível substituir munições. “Mas continuar a lutar é uma situação melhor do que simplesmente assinar um acordo nos termos russos.”

    Para os soldados de infantaria, a primeira linha de defesa contra o avanço da Rússia, a situação continua crítica. Ficam em buracos cavados por eles mesmos, chamados informalmente de tocas de raposa, que praticamente substituíram as trincheiras tradicionais. A função desses combatentes é não deixar os russos tomarem mais terra.

    Cada soldado deveria ficar, no máximo, cinco dias no buraco, tão apertado que mal se consegue sentar-se ereto. “Mas não temos gente suficiente, e está muito difícil fazer rotação, por causa dos drones. Tem gente ficando até um mês”, conta Milka, comandante de um esquadrão de infantaria da 68ª Brigada, de Pokrovsk. Ele comanda 30 homens nesses esconderijos.

    Milka recebeu a reportagem em uma casa a poucos quilômetros das posições da infantaria. A construção estava parcialmente destruída –havia sido atingida por estilhaços de uma bomba planadora três dias antes. Ele conta que estava dormindo e acordou com a explosão.

    “Em 2023, havia dois, três drones no front, durante algumas horas. Dava para sair da posição, andar, cavar”, diz Milka. “Agora, na maioria das posições, nem dá para sair do buraco para fazer as necessidades. Os soldados precisam deixar a vergonha de lado e fazer em um saco plástico, na frente dos companheiros, em um espaço minúsculo.”

    Dentro dos esconderijos, conta Milka, há ratos enormes, então os soldados precisam manter a comida totalmente vedada, para os animais não comerem.

    Durante a noite, os drones Vampire fazem as entregas nas tocas de raposa: água, salsicha, carne enlatada, pão, energético, cigarros, vapes, barras de proteína, lenços de papel, meias, cuecas e munição. “Pode faltar comida, mas não pode faltar cigarro e água”, diz Milka.

    Os militares se comunicam por walkie-talkie. Levam power bank para recarregar o aparelho, um saco de dormir e, às vezes colchonetes de ioga. Não levam celular.

    Nos esconderijos, mantêm armamentos como metralhadoras e lançadores de granadas. Segundo Milka, os russos atacam com bombas de fósforo branco, morteiros de 120 mm, lançadores de foguetes e drones.

    Ele acha que seria importante haver um cessar-fogo, mesmo parcial, mas não está otimista. “Minha filosofia é: se eu vejo um borsch [sopa típica ucraniana, à base de beterraba]na minha frente, eu como. Mas, se alguém me diz que vai ter borsch, eu duvido.”

    Fonte Matéria

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