A quebra de sigilo de parte das investigações da Polícia Federal sobre o empresário Daniel Vorcaro revelou uma extensa rede de relacionamentos políticos, vantagens financeiras e tentativas de influência em órgãos públicos estratégicos. Os documentos, tornados públicos por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, apontam que o ex-controlador do Banco Master mantinha interlocução frequente com parlamentares, ex-integrantes do Banco Central e pessoas ligadas a instituições responsáveis por investigações contra seu grupo econômico.
Segundo a Polícia Federal, o caso mais emblemático envolve o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Os investigadores afirmam ter identificado uma relação que ultrapassava a amizade pessoal e incluía benefícios financeiros, viagens internacionais de luxo e atuação política alinhada aos interesses do então banqueiro.
Viagens de luxo e benefícios financeiros
De acordo com o relatório, Daniel Vorcaro teria custeado despesas de viagens internacionais do senador em diferentes ocasiões, incluindo hospedagens, restaurantes de alto padrão, transporte e deslocamentos em aeronaves particulares.
Um dos episódios citados ocorreu em janeiro de 2025, na estação de esqui de Courchevel, nos Alpes franceses. Somente em despesas realizadas em dois restaurantes da região, os gastos atribuídos ao senador teriam ultrapassado R$ 122 mil.
A investigação também menciona viagens para cidades como Paris, Nova York e Lisboa, além de voos privados internacionais e domésticos nos Estados Unidos.
Além das despesas com viagens, a Polícia Federal afirma ter encontrado indícios de repasses mensais que chegariam a R$ 300 mil, ao longo de aproximadamente 20 meses, totalizando cerca de R$ 6 milhões.
Para os investigadores, a relação era baseada em interesses convergentes.
“A amizade transcende a mera relação pessoal e revela uma relação funcional e instrumental, orientada pelo benefício mútuo”, registra o relatório.
Projetos legislativos de interesse do banco
Outro ponto destacado pela PF é a suposta participação direta de Vorcaro na elaboração de propostas legislativas apresentadas no Congresso Nacional.
Conversas encontradas em aparelhos apreendidos indicariam que minutas de projetos de interesse do Banco Master eram discutidas previamente e encaminhadas para revisão antes de serem apresentadas no Senado.
Entre os casos citados está a chamada “Emenda Master”, apresentada pelo senador Ciro Nogueira. A proposta previa ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), medida que, segundo os investigadores, beneficiaria diretamente o modelo de negócios adotado pelo banco.
Encontro com políticos em Lisboa
As investigações também identificaram mensagens relacionadas à organização de um encontro político realizado em Lisboa, Portugal, em junho de 2024.
Segundo a Polícia Federal, Vorcaro solicitou reservas em um hotel de luxo para autoridades brasileiras, entre elas o senador Ciro Nogueira e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta.
As reservas teriam sido feitas no hotel Four Seasons e integrariam um evento que reuniu políticos e empresários na capital portuguesa.
Questionado sobre o episódio, Hugo Motta afirmou que participou de um evento corporativo e declarou não ver irregularidades na viagem.
Informações privilegiadas dentro do Banco Central
A Polícia Federal também aponta que Vorcaro teria recebido informações sigilosas relacionadas a investigações envolvendo o Banco Master.
Os relatórios indicam que ele soube antecipadamente da existência de reuniões entre o Banco Central e a Polícia Federal, além de detalhes sobre processos judiciais que apuravam irregularidades ligadas à instituição financeira.
Mensagens encontradas pela investigação sugerem que ex-integrantes do Banco Central alertavam Vorcaro sobre movimentações do mercado e sobre repercussões negativas de medidas defendidas pelo banco.
Tentativa de influência sobre autoridades
Segundo a PF, o empresário também tentou estabelecer canais de interlocução junto a integrantes da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República pouco antes de sua prisão.
Anotações encontradas em aparelhos apreendidos mostram pedidos para que interlocutores próximos reforçassem contatos com dirigentes dos órgãos de investigação, numa tentativa de evitar medidas consideradas prejudiciais aos interesses do grupo.
A Polícia Federal sustenta que, após ter acesso antecipado a informações relacionadas às apurações, Vorcaro passou a monitorar autoridades e a buscar formas de influenciar decisões administrativas e judiciais.
Investigações continuam
Os documentos divulgados integram uma fase preliminar das investigações da Operação Compliance Zero. As conclusões ainda serão analisadas pelo Supremo Tribunal Federal e pelos órgãos responsáveis pela persecução penal.
As defesas dos investigados negam irregularidades e afirmam que os fatos serão esclarecidos ao longo do processo.
Enquanto isso, a Polícia Federal continua aprofundando as apurações sobre a atuação do grupo, incluindo suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, tráfico de influência, obtenção de informações sigilosas e uso de estruturas paralelas para monitoramento de adversários e proteção de interesses financeiros.

