A Polícia Federal afirmou que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro mantinha uma relação de “tratamento privilegiado” com o senador Ciro Nogueira, incluindo o custeio de viagens internacionais, hospedagens em hotéis de luxo e deslocamentos em aeronaves particulares.
As conclusões constam em relatório encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito das investigações da Operação Compliance Zero. O documento teve o sigilo retirado nesta terça-feira (16) pelo ministro André Mendonça.
Segundo os investigadores, a proximidade entre Vorcaro e o parlamentar extrapolava uma relação de amizade e possuía caráter funcional, com benefícios mútuos. A Polícia Federal sustenta que o senador teria atuado em favor de interesses ligados ao Banco Master, enquanto recebia vantagens financeiras custeadas pelo empresário.
Entre os elementos reunidos pela investigação estão fotografias que mostram Vorcaro e Ciro Nogueira juntos em diferentes viagens internacionais realizadas entre 2024 e 2025. As imagens registram encontros em Nova Jersey, nos Estados Unidos, e em Courchevel, tradicional estação de esqui localizada nos Alpes franceses.
A PF afirma que as despesas incluíam passagens em jatos particulares, hospedagens em estabelecimentos de alto padrão, refeições em restaurantes de luxo e até a aquisição de roupas específicas para atividades de inverno.
De acordo com o relatório, o valor total desembolsado por Vorcaro para custear viagens e despesas pessoais do senador ainda está sendo calculado, mas já ultrapassaria R$ 500 mil, segundo estimativas consideradas conservadoras pelos investigadores.
A investigação também menciona pagamentos periódicos que, na avaliação da PF, funcionariam como uma espécie de mesada destinada ao parlamentar. Os valores variariam entre R$ 300 mil e R$ 500 mil.
Outro ponto destacado pelos investigadores envolve a tramitação da chamada “Emenda nº 11 à PEC 65/2023”, conhecida nos bastidores do mercado financeiro como “Emenda Master”. Segundo a Polícia Federal, o texto teria sido elaborado por assessores ligados ao Banco Master e posteriormente apresentado por Ciro Nogueira no Senado.
Os investigadores afirmam ter identificado coincidência integral entre minutas encontradas em aparelhos apreendidos e o conteúdo protocolado oficialmente pelo parlamentar. Para a PF, a proposta possuía potencial para ampliar significativamente os negócios do banco, ao mesmo tempo em que transferiria riscos ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
O relatório sustenta ainda que a estrutura investigada utilizava terceiros e empresas interpostas para dificultar o rastreamento da origem e do destino dos recursos financeiros.
Daniel Vorcaro está preso preventivamente em Brasília e é investigado por suspeitas de fraudes financeiras, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Segundo informações já divulgadas pelas autoridades, propostas de colaboração premiada apresentadas pelo empresário foram rejeitadas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público.
Em manifestação anterior, a defesa de Ciro Nogueira afirmou que o senador está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e negou qualquer prática irregular. Os advogados sustentam que o parlamentar jamais participou de atividades ilícitas e rejeitam qualquer associação entre sua atuação legislativa e interesses privados.

