O Pix voltou ao centro do debate político e econômico após ser citado em uma investigação comercial do governo dos Estados Unidos contra o Brasil. O sistema de pagamentos instantâneos, hoje usado por milhões de brasileiros, foi apontado por Washington como uma suposta vantagem concedida pelo Banco Central a uma infraestrutura nacional, em prejuízo de empresas americanas do setor financeiro.
A crítica reacendeu uma disputa interna sobre a origem do Pix. Enquanto o governo Lula passou a defender o sistema como símbolo da soberania financeira brasileira, aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro afirmam que a ferramenta foi lançada durante sua gestão.
A história, porém, mostra que o Pix foi desenvolvido ao longo de diferentes governos, com protagonismo técnico do Banco Central.
Como o Pix nasceu
O Pix é um sistema de pagamentos instantâneos que permite transferências entre contas em poucos segundos, a qualquer hora do dia, inclusive em fins de semana e feriados.
A primeira manifestação oficial sobre a necessidade de soluções de pagamento em tempo real apareceu em 2014, durante o governo Dilma Rousseff, em documentos do Banco Central sobre o Sistema de Pagamentos Brasileiro.
O desenvolvimento efetivo começou em maio de 2018, ainda no governo Michel Temer, quando o Banco Central criou um grupo de trabalho para estruturar um ecossistema de pagamentos instantâneos no país.
Naquele momento, o nome Pix ainda não existia, mas as bases do sistema já estavam definidas. A proposta previa uma infraestrutura centralizada, operada pelo Banco Central, disponível 24 horas por dia, sete dias por semana.
Lançamento ocorreu no governo Bolsonaro
O projeto avançou nos anos seguintes e foi lançado oficialmente em novembro de 2020, durante o governo Jair Bolsonaro.
A marca Pix havia sido apresentada em fevereiro daquele ano. Em outubro de 2020, começou o cadastramento das chaves. No dia 3 de novembro, o sistema entrou em operação restrita. Em 16 de novembro, passou a funcionar plenamente em todo o país.
Ao todo, foram cerca de 31 meses entre a criação do grupo de trabalho do Banco Central e o lançamento definitivo da ferramenta.
Popularização rápida
O Pix se tornou uma das principais inovações financeiras do Brasil. Segundo dados do Banco Central, mais de 170 milhões de pessoas físicas já utilizaram o sistema, o equivalente a cerca de 80% da população brasileira.
A ferramenta também movimenta valores bilionários. Em 2025, o sistema registrou recordes sucessivos de transações, consolidando-se como um dos meios de pagamento mais usados no país.
O sucesso do Pix fortaleceu bancos digitais, fintechs e pequenos negócios, além de reduzir custos para consumidores e empresas.
Por que os Estados Unidos criticam o Pix
O governo americano afirma que o Brasil teria favorecido o Pix em detrimento de empresas estrangeiras de pagamentos eletrônicos.
No relatório elaborado com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, Washington argumenta que o Banco Central brasileiro atua ao mesmo tempo como regulador e operador do sistema, o que, na visão americana, criaria conflito de interesses.
O documento também critica a obrigatoriedade de participação no Pix para instituições financeiras com mais de 500 mil contas e a exigência de que o sistema apareça com destaque nos aplicativos bancários.
Febraban defende o sistema
A Federação Brasileira de Bancos rebateu as críticas e afirmou que o Pix é uma infraestrutura pública de pagamento, e não um produto comercial.
Para a entidade, o sistema favorece a concorrência, amplia a inclusão financeira e melhora o funcionamento da economia. A Febraban também afirma que bancos, fintechs e instituições estrangeiras podem participar do sistema, desde que estejam autorizados a operar no Brasil.
Debate virou disputa política
A inclusão do Pix no relatório americano transformou o tema em bandeira política.
O presidente Lula passou a afirmar que “o Pix é do Brasil” e criticou o governo Trump por atacar uma tecnologia nacional bem-sucedida.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro passou a defender que o sistema foi lançado durante a gestão de seu pai e acusou o governo atual de criar uma falsa ameaça em torno da ferramenta.
Apesar da disputa política, a origem do Pix está ligada a um processo técnico conduzido pelo Banco Central, iniciado antes do governo Bolsonaro e implementado durante sua gestão.
Referência internacional
O modelo brasileiro tem sido elogiado por economistas e observado por outros países. O Nobel de Economia Paul Krugman já classificou o Pix como uma possível antecipação do futuro do dinheiro, por combinar baixo custo, rapidez e inclusão financeira.
A força do sistema também explica parte do incômodo internacional. Para especialistas, o Pix reduziu a dependência de redes privadas de pagamento e colocou nas mãos do Estado brasileiro uma infraestrutura estratégica de circulação de dinheiro e dados financeiros.
Mais do que uma ferramenta de transferência, o Pix se tornou um símbolo de inovação pública e de disputa por soberania digital no sistema financeiro.

