A escritora, quadrinista e cineasta franco-iraniana Marjane Satrapi morreu aos 56 anos. A informação foi confirmada por familiares nesta quinta-feira (4), encerrando a trajetória de uma das vozes mais importantes da literatura gráfica contemporânea e uma das críticas mais conhecidas do regime iraniano.
Em comunicado divulgado à imprensa, a família afirmou que Satrapi morreu “de tristeza”, pouco mais de um ano após a morte de seu marido, Mattias Ripa, produtor e ator com quem dividiu a vida por décadas. Ripa faleceu em abril de 2025.
Nascida em Rasht, no Irã, em 1969, Marjane Satrapi construiu reconhecimento internacional ao transformar sua própria história em arte. Exilada na França desde os anos 1990, ela encontrou nos quadrinhos uma forma de narrar experiências pessoais marcadas pela Revolução Islâmica, pela guerra e pela condição de estrangeira.
Sua obra mais conhecida, Persépolis, tornou-se um fenômeno editorial ao retratar, com sensibilidade e humor, a infância e a juventude da autora em meio às transformações políticas do Irã. O livro conquistou leitores em dezenas de países e ajudou a popularizar o romance gráfico como linguagem capaz de abordar temas históricos, sociais e políticos complexos.
O sucesso da obra ultrapassou as páginas. Em 2007, Satrapi codirigiu a adaptação cinematográfica de Persépolis ao lado de Vincent Paronnaud. O longa de animação recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e foi indicado ao Oscar de Melhor Animação, consolidando ainda mais a projeção internacional da autora.
Ao longo da carreira, Satrapi também dirigiu filmes, publicou outras obras autobiográficas e tornou-se uma referência na defesa da liberdade de expressão, dos direitos das mulheres e da democracia. Sua produção artística foi marcada pela crítica ao autoritarismo, mas também pela capacidade de abordar temas universais como identidade, pertencimento, amor, perda e memória.
Em uma entrevista concedida em 2007, a autora explicou por que escolheu os quadrinhos para contar sua trajetória. Para ela, o desenho permitia transformar uma experiência profundamente pessoal em uma narrativa capaz de dialogar com pessoas de diferentes culturas e realidades.
A morte da artista provocou homenagens de personalidades da cultura e da política. O presidente da França, Emmanuel Macron, destacou a capacidade de Satrapi de transformar uma experiência individual em uma obra de alcance universal. Já o diretor do Festival de Cannes, Thierry Frémaux, afirmou que ela representava ao mesmo tempo a alegria da criação artística e a dor do exílio.
Com uma obra que atravessou fronteiras e gerações, Marjane Satrapi deixa um legado que vai além dos quadrinhos e do cinema. Sua voz ajudou a apresentar ao mundo uma visão íntima do Irã contemporâneo e mostrou como histórias pessoais podem iluminar questões universais sobre liberdade, resistência e humanidade.

