Flores, música, abraços e muitas histórias compartilhadas. Foi assim que o sul-mato-grossense Tiago Martins Pitthan, de 49 anos, decidiu viver um dos momentos mais marcantes de sua trajetória. Diagnosticado com um câncer de estômago sem possibilidade de cura, ele organizou uma celebração em Campo Grande para reunir familiares, amigos e até pessoas que conheceu apenas por meio de sua história.
A proposta era simples: participar da própria homenagem enquanto ainda pudesse ouvir, rir, agradecer e demonstrar carinho a todos que fizeram parte de sua vida.
Embora tenha chamado o encontro de “velório em vida”, Tiago faz questão de explicar que o evento não foi pensado como uma despedida marcada pela tristeza.
“Não é uma festa sobre a morte. É uma festa sobre a vida”, resumiu.
A ideia surgiu durante o velório do pai
A inspiração veio em agosto de 2024, durante o velório de seu pai. Enquanto observava amigos e familiares compartilhando lembranças, ele percebeu algo que o marcou profundamente.
As histórias eram emocionantes, os relatos carregados de afeto, mas faltava justamente a pessoa que mais conhecia aquela trajetória.
“Ninguém sabia mais sobre meu pai do que ele mesmo”, refletiu.
Foi naquele momento que tomou uma decisão: quando chegasse sua vez, ele queria estar presente.
A proposta inicialmente seria um encontro restrito aos amigos mais próximos. No entanto, após sua história ganhar repercussão na imprensa e nas redes sociais, a celebração acabou atraindo pessoas de diferentes partes do país.
Um encontro que reuniu conhecidos e desconhecidos
Entre os participantes estavam pessoas que viajaram milhares de quilômetros apenas para conhecê-lo.
Foi o caso dos servidores públicos Lícia Freitas e Ramon Santos, que saíram de João Pessoa, na Paraíba, para participar da homenagem.
Lícia conta que se identificou imediatamente com a história de Tiago porque seu pai enfrentou o mesmo tipo de câncer.
Para ela, a forma como ele encara a doença transmite uma mensagem poderosa sobre coragem e aceitação.
Já Ramon destaca que o maior ensinamento da experiência é a recusa em permitir que o medo da morte impeça alguém de viver plenamente.
O diagnóstico e a mudança de perspectiva
Os primeiros sinais da doença apareceram durante as comemorações de Ano-Novo de 2024, quando Tiago percebeu dificuldades para se alimentar. Após uma série de exames, veio o diagnóstico de adenocarcinoma gástrico, um tipo de câncer de estômago.
Inicialmente, existia a expectativa de um tratamento cirúrgico. No entanto, os médicos constataram que a doença já havia se espalhado para outras partes do organismo, tornando impossível a cura.
Apesar da notícia devastadora, Tiago decidiu encarar a situação sob outra perspectiva.
Segundo ele, receber um diagnóstico definitivo trouxe também clareza sobre o que precisava enfrentar.
“Eu tenho câncer, mas o câncer não me tem”, passou a repetir.
Celebrar enquanto há tempo
Durante toda a celebração, Tiago circulou entre os convidados usando roupas coloridas escolhidas especialmente para a ocasião. Conversou, ouviu homenagens, participou das apresentações musicais e recebeu incontáveis demonstrações de afeto.
Em vários momentos, reforçou uma mensagem que se tornou o centro da sua história.
“As pessoas perguntam como é estar morrendo. Mas eu não estou morrendo. Eu estou vivendo.”
Para ele, a morte é apenas um instante inevitável da existência. O restante do tempo deve ser dedicado a viver, amar e construir memórias.
Ao final da celebração, o que ficou não foi a sensação de despedida, mas a de encontro. Um encontro com amigos, com a própria trajetória e com a certeza de que a vida pode ser celebrada até o último momento.
Porque, naquele sábado, em Campo Grande, Tiago não quis ser lembrado pela doença. Preferiu ser lembrado pela forma como escolheu viver.

