Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Municipal de Yokohama, no Japão, está avaliando o potencial de personagens inspirados em animes e mangás como ferramenta de apoio à saúde mental. O estudo investiga se avatares com estética típica da animação japonesa podem ajudar pessoas com sintomas de depressão a se sentirem mais confortáveis para expressar emoções e buscar acompanhamento psicológico.
O projeto é coordenado pelo psiquiatra italiano Francesco Panto, que vive no Japão e afirma ter encontrado nos animes um importante apoio emocional durante a adolescência. Segundo ele, muitos personagens apresentavam formas de masculinidade, sensibilidade e superação que não encontrava em seu ambiente social, marcado por estereótipos rígidos.
A pesquisa-piloto acompanhou, durante seis meses, 20 participantes entre 18 e 29 anos que apresentavam sintomas depressivos. Eles realizaram sessões de terapia online com psicólogos representados por avatares de anime, com vozes modificadas digitalmente. A proposta é utilizar um “filtro de fantasia” capaz de reduzir barreiras emocionais e facilitar a comunicação entre pacientes e profissionais.
Para o estudo, foram criados seis personagens com características inspiradas em arquétipos comuns dos mangás japoneses. Cada avatar possuía uma história ligada a desafios emocionais específicos, como ansiedade, transtorno bipolar, estresse pós-traumático ou problemas relacionados ao consumo de álcool. Os participantes puderam escolher livremente o personagem com o qual mais se identificavam.
Além de avaliar a aceitação da metodologia, os pesquisadores monitoraram indicadores como frequência cardíaca e qualidade do sono para analisar possíveis impactos sobre os sintomas da depressão. A equipe também estuda a possibilidade de utilizar inteligência artificial em futuras versões da terapia.
A iniciativa surge em um contexto de preocupação com a saúde mental no Japão. Dados citados pelos pesquisadores indicam que apenas 6% da população japonesa havia procurado atendimento psicológico em 2022, percentual significativamente inferior ao observado em países da Europa e nos Estados Unidos.
Especialistas avaliam que referências culturais populares, como os animes, podem funcionar como pontes para o diálogo terapêutico. Segundo o terapeuta familiar Jesús Maya, da Universidade de Sevilha, o uso desse universo pode facilitar a identificação de emoções e melhorar a comunicação entre paciente e terapeuta.
Se os resultados forem positivos, os pesquisadores esperam que a metodologia possa ser expandida para outros países, oferecendo novas alternativas de acolhimento para jovens que enfrentam dificuldades emocionais e sociais.

