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    Eu e Mujica buscamos a unidade no Uruguai, diz Sanguinetti

    By Agência Cearensemaio 19, 2025 Mundo
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    Eu e Mujica buscamos a unidade no Uruguai,diz Sanguinetti - 18/05/2025 - Mônica Bergamo
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    Personagem chave no processo de redemocratização do Uruguai, o ex-presidente Julio María Sanguinetti não esconde o respeito que nutre por José “Pepe” Mujica, que morreu na semana passada, aos 89 anos, após meses de tratamento contra um câncer de esôfago.

    Apesar de serem opositores políticos —um, ícone da esquerda, e o outro, estrela da direita—, Sanguinetti diz que passaram “a ser colegas amistosos” e que trabalharam “pela reconciliação nacional”.

    “Pepe foi criticado: ‘O que você faz com esse burguês do Sanguinetti?.’ E a mim me diziam: ‘O que você faz com esse velho tupamaro?’. E eu respondia o mesmo a todos: ‘Senhores, queremos a paz ou não? A paz se faz entre adversários, não com seus próprios”, afirma Sanguinetti em entrevista por videoconferência na sexta-feira (16), dias após a morte de Mujica.

    Membro do tradicional Partido Colorado, ele governou o Uruguai em duas ocasiões: na primeira, de 1985 a 1990, encerrou um ciclo de 12 anos de governos autoritários. Depois, retornou ao cargo entre 1995 e 2000.

    Já Mujica, ex-guerrilheiro, ajudou a criar o MPP (Movimento de Participação Popular), a força com mais congressistas dentro da Frente Ampla. Foi eleito deputado em 1995 e ocupou a Presidência entre 2010 e 2015.

    À coluna, Sanguinetti relembra seu último encontro com Mujica, em março, durante um evento realizado na casa do Partido Colorado, em Montevidéu, em comemoração aos 40 anos da democracia. Diz que um dos maiores legados do esquerdista é o de “se transformar e se retificar” e comenta bastidores da decisão de renunciarem em conjunto ao Senado em 2020.

    Vimos uma grande comoção em torno da morte de Pepe Mujica. Quais valores o senhor acredita que Mujica encarnou que o tornaram tão popular?

    A figura de Mujica foi muito peculiar no nosso país. Eu, pessoalmente, passei com ele por todas as etapas que se pode passar em um relacionamento pessoal e político.

    Primeiro, sem nos conhecermos, éramos inimigos. Eles [os Tupamaros, grupo guerrilheiro do qual Mujica fez parte] fizeram uma guerra civil, uma revolução armada muito dramática.

    Depois, eles [guerrilheiros]foram presos e veio a ditadura militar (1973–1985). E a ditadura, naturalmente, nos colocou do mesmo lado, do lado da liberdade. E eles que haviam entrado na prisão, eu diria que muito censurados pela opinião pública, saíram ao contrário, com outra visão.

    E aí vem o segundo Mujica, digamos, o político. Fomos competidores. No ano 1995 ele se tornou deputado. Foi algo extravagante, porque ele aparece na Câmara dos Deputados em uma vespa, de jeans e jaqueta. Naquela época não se usava essa vestimenta informal.

    Meu primeiro contato com Mujica foi em 1º de março de 1995, na cerimônia de posse do meu segundo período presidencial. Ele, na bancada parlamentar, me olha ao passar e diz: “Estamos com você, presidente”.

    Acredito que ao final esse é o maior legado que ele deixa. Sua capacidade de se transformar, de retificação. Ou seja, a capacidade de mudar. De passar daquela etapa revolucionária a uma etapa pacificadora, integradora.

    Tivemos em particular uma grande aproximação. Passamos a ser colegas amistosos e trabalhamos pela reconciliação nacional. Estivemos juntos no Senado e nos aposentamos juntos.

    Essa era uma pergunta que eu queria fazer. Em 2020, vocês dois eram senadores e decidiram renunciar em conjunto. Como chegaram a esse acordo e por que fazer isso ao mesmo tempo? Havia uma mensagem que queria passar?

    Uma certa tarde eu estava no Senado, em uma comissão com Lucía [Topolansky, mulher de Mujica], que era senadora também. Comentei que pensava em renunciar. E então Lucía me diz: ‘Pepe também quer renunciar porque, com a pandemia, ele quer ir embora’. E aí surge a ideia. Mujica concordou e fizemos uma sessão especial, uma cerimônia de despedida.

    Já era incomum que houvesse dois ex-presidentes no Senado. E que saíssemos juntos era algo particular, especial. E o fizemos deliberadamente como uma mensagem à juventude.

    Queríamos demonstrar como pessoas com histórias distintas, que tiveram seus enfrentamentos, sabem buscar a paz. Democracia é diálogo. E o diálogo sempre deve ser preservado perante as instituições republicanas.

    Depois inclusive se fez um livro de diálogo [“O Horizonte: Conversas sem Ruído Entre Sanguinetti e Mujica”] de dois jornalistas colegas, Alejandro Ferreiro e Gabriel Pereyra. Nós fomos apresentá-lo em Buenos Aires.

    Lá, éramos vistos como uma espécie de dinossauros, uma estranha espécie em extinção em um país de política tão confrontadora como a Argentina. Dois presidentes com histórias tão diferentes, com aspectos tão diferentes, eu sempre com minhas gravatas e ele sempre com seu aspecto de chacareiro, mas de algum modo marcados por esse espírito de unidade.

    A imagem de vocês se abraçando [na saída do Senado]se tornou um símbolo de diálogo democrático e republicano. O sr. vê a política mais polarizada hoje em dia? Ou acredita que o Uruguai é um lugar de menos embate na comparação com países vizinhos como a Argentina e o Brasil?

    Hoje, o conceito de representação se enfraqueceu por uma combinação de fatores. As redes [sociais]que fazem o cidadão viver a ilusão de participar do debate de modo individual, sem intermediários, as insatisfações de um emprego muito mais instável, os fatores vinculados ao consumismo etc.

    As opções intermediárias vão perdendo peso frente às posições extremas de direita ou de esquerda. Hoje os populistas também são de direita. Quando falamos de populista falamos de líderes messiânicos, demagógicos, que estão além das instituições. Isso se vê na Europa, na América Latina.

    O Uruguai felizmente mantém suas instituições firmes e seus partidos em coalizão. Há uma coalizão de esquerda, há uma coalizão de centro e não há direita extrema no Uruguai, felizmente, nem hoje tampouco uma esquerda revolucionária. Então acredito que isso sim nos dá estabilidade.

    O último ato [público] de Mujica foi em 27 de março.

    Na sede do Partido Colorado, correto?

    Na casa do Partido Colorado, algo inédito, uma reunião com o presidente da República [Yamandú Orsi] e todos os ex-presidentes para celebrar os 40 anos do retorno democrático. Foi muito emocionante a presença de Mujica. Era muito clara sua situação de saúde.

    Qual você acredita que será o impacto da morte de Mujica para a esquerda uruguaia?

    Acredito que ele passa a ser uma referência histórica. A Frente Ampla já hoje é um partido tradicional. Já começa a ter uma iconografia. Líber Seregni como fundador, depois Tabaré Vázquez como o primeiro [membro da sigla]a chegar à Presidência da República. E então Mujica, que significa justamente a pacificação, a transformação da etapa revolucionária para a democracia liberal.

    O senhor falou do crescimento do populismo, tanto à direita quanto à esquerda. Queria perguntar sobre como o senhor vê os atuais da direita, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei?

    O fenômeno populista não é uma ideologia. É um método no qual um líder messiânico faz um uso abusivo das instituições do Estado para constituir ou perpetuar-se no poder.

    A grande curiosidade é que agora apareceram esses demagogos fortes à direita. Antes não era comum, porque o populismo normalmente era de esquerda. Como Chávez, para dar um nome, na Venezuela. Um emblemático populista que acabou em uma ditadura permanente.

    No caso dos de direita, como Trump ou Milei, é diferente no sentido de que eles estão dentro da institucionalidade democrática. Embora atuem com um critério, digamos, demagógico, que às vezes caminha para o abuso da institucionalidade, acabam se atendo a isso. Ou seja, não há uma proposta revolucionária no sentido clássico.

    Acredito que Milei vai deixar a Argentina, se culminar com êxito seu esforço econômico, um país mais estável, mas uma política mais crispada, de rachadura, de enfrentamento. Ele representa essas duas coisas.

    Por um lado, uma ordem econômica maior e por outro lado um ataque frenético a todo o resto, aos partidos que ele chama de casta política, ao jornalismo etc.

    Ainda no tema da América Latina, o sr. defende uma flexibilização do Mercosul? Acredita que esse é o caminho?

    O Mercosul não nasceu como uma nova força protecionista, mas como uma plataforma de lançamento para o mundo. É verdade que hoje a situação mudou porque os Estados Unidos passaram de líder da liberdade comercial para líder do protecionismo. Um retrocesso muito forte da marca Trump.

    Pessoalmente, continuo acreditando que o Mercosul precisa ser mais flexível. Agora, vem uma pergunta: “Esse protecionismo de Trump veio para ficar ou passará?.” Não sabemos. Quero pensar que passa e que depois vamos retornar novamente a um comércio mais livre.

    Ao longo dos anos, o senhor e o ex-presidente Mujica trilharam caminhos distintos, mas compartilharam espaços-chave na política. E desenvolveram uma relação de proximidade. Queria perguntar se há uma anedota ou momento com Mujica que marcou ou que guarda com especial afeto.

    Estive com Mujica em muitos momentos e em muitas instâncias, mas creio que a mais importante é a última, quando poucas semanas antes de morrer fizemos esse grande ato na casa do nosso partido. E a última grande intervenção pública. É uma intervenção conciliadora, pacifista, com uma visão histórica. É a última imagem [que tenho dele]e o último abraço também.

    Fonte Matéria

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