A cidade de Crateús, no interior do Ceará, registrou um momento histórico na última quinta-feira (28). A Câmara Municipal aprovou por unanimidade o Projeto de Lei que reconhece a Língua Dzubukuá, do povo Kariri, como cooficial do município. Esta é a primeira vez que a língua indígena é oficializada em Crateús e a segunda no Ceará, já que Monsenhor Tabosa havia reconhecido a Língua Tupi-nheengatu em 2021.
Para a Associação Kariri, a conquista é mais do que simbólica: “Nossa língua não está morta. Este é um ato de resistência e de afirmação cultural que fortalece a identidade, a memória e a esperança das novas gerações”. Durante a votação, indígenas lotaram o plenário, entoando cânticos tradicionais e exibindo cartazes.
Segundo o último Censo do IBGE, Crateús abriga 3.733 indígenas, entre as etnias Kariri, Tabajara, Kalabaça, Potyguara, Tupinambá, Jenipapo-Kanindé e Guarany.
A autora da proposta, a vereadora Professora Amélia (PCdoB), explicou que o reconhecimento permitirá que a língua seja usada em documentos oficiais, provas, currículos pedagógicos e escolas municipais. “Antes, a utilização era informal. Agora, é legalizada e reforça o respeito à comunidade originária”, destacou.
O projeto segue para sanção da prefeita Janaína Farias.
Pesquisa e revitalização
De acordo com o educador Lucas Kariri Sipya, morador da Aldeia Maratoan, a retomada da língua começou a partir de pesquisas em livros e manuscritos antigos. “Nossa língua nunca foi extinta, apenas silenciada”, explicou.
A iniciativa contou com o apoio do professor Valdivino José de Lima Neto, especialista em etnologia indígena, e de Idiane Kariri-Xocó, guardiã da língua Dzubukuá-Kipeá em Alagoas, que visitou a comunidade cearense para trocar experiências.
Hoje, a língua já é ensinada às crianças por meio da musicalidade. “Já temos 15 músicas compostas pelas próprias crianças em Dzubukuá”, afirma Lucas. Além disso, está em construção a Oca dos Saberes, que funcionará como centro cultural e laboratório linguístico.
O Dzubukuá integra a família linguística Karirí, junto ao Kipeá, Sabuyá e Kamurú. Documentos raros do século XVIII, produzidos pelo missionário francês Bernardo de Nantes, registram parte da gramática e dos costumes do povo Kariri.
Com informações do Diário do Nordeste
Foto: Associação Kariri

