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    EUA: fui algemado como assassino, diz estudante brasileiro

    By Agência Cearensejunho 9, 2025 Mundo
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    EUA: fui algemado como assassino, diz estudante brasileiro - 09/06/2025 - Mundo
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    O estudante do ensino médio Marcelo Gomes, 18, relata momentos de angústia dentro de um centro de detenção em Burlington, onde ficou preso por seis dias após ser alvo do ICE (serviço de imigração dos Estados Unidos) na cidade de Milford, em Massachusetts.

    Ele conta à Folha que na tarde do dia 31 de maio foi buscar dois amigos em casa para um treino de vôlei na Milford High School, onde estuda. No caminho, percebeu que um carro branco o seguia, mas não deu importância, até ser parado por este veículo.

    “O policial parou atrás de mim, ligou as luzes, saiu do carro e bateu na porta. Eu saí e entreguei minha licença [carteira de motorista]. Nessa hora, eu já estava assustado. Ele foi até o computador e, quando voltou, já me algemou. Disse: ‘Sabe por que você está sendo preso?’ Eu respondi que não. Ele falou: ‘Porque você é um imigrante ilegal’. Aí eu fiquei em choque”, relata.

    O agente não se identificou, mas ele e o parceiro usavam jalecos com as iniciais do ICE. Um dos amigos que estavam no carro também era um imigrante em situação irregular, mas foi liberado por ser menor de idade.

    Já no carro da imigração, Marcelo foi levado a uma delegacia, onde encontrou outros imigrantes detidos: dois equatorianos e dois brasileiros.

    “Quando cheguei, eles colocaram uma nova algema nas minhas pernas, outra na minha barriga e nos meu braços, para não poder correr. Eu não estava entendendo. Eu pensei: ‘Devo ter matado o mundo inteiro para ser algemado assim’.”

    Deste local, ele e os demais foram levados ao centro de detenção em Burlington. Segundo o estudante, os policiais não davam nenhuma informação e só faziam perguntas básicas, para confirmar nome e idade. No centro de detenção, colheram as digitais de Marcelo e o levaram a uma cela.

    O rapaz conta que havia cerca de 40 pessoas num espaço pequeno e que ele era o mais novo. Segundo ele, ninguém ali tinha menos de 24 anos.

    “Nós dormíamos no concreto, comíamos a comida que eles levavam, era tipo um Mac and Cheese (macarrão com queijo), mas era tipo um plástico, uma comida horrível. Então, nós implorávamos para poder comer uma bolacha que eles davam lá, pequenininha, de umas 100 calorias.”

    Marcelo diz que chorou por dois dias inteiros e que, nesse período, não recebia informações sobre seu caso nem conseguia falar com o pai. No terceiro, conta que soube que uma advogada queria assumir seu caso —que ganhou grande repercussão— e conseguiu falar com os pais pelo telefone.

    O estudante afirma que passou seis dias sem tomar banho, porque não tinha chuveiro, usando o vaso na frente de vários adultos e sem colchão. E que só lhe deram um cobertor de alumínio.

    De acordo com seu relato, havia vários brasileiros e imigrantes de outras nacionalidades na cela. Alguns não sabiam falar inglês, então Marcelo atuou como uma espécie de tradutor a eles.

    “Depois de um ou dois dias lá, todo mundo ganhava um papel. No papel estava escrito que você ou ia ser deportado ou que tinha uma audiência numa corte. Aí eu explicava para eles lá dentro”, diz.

    Marcelo afirma que foi dos que ficaram mais tempo lá dentro porque a maioria era transferida em poucos dias. O ICE solicitou a transferência do rapaz para outro estado, mas um juiz negou, atendendo a pedido da defesa. A advogada orientou o estudante a aguentar mais um pouco no local porque, se ele fosse transferido para um presídio fora de Massachusetts, seria muito mais difícil conseguir sua soltura.

    O brasileiro foi liberado na quinta-feira passada (5), após a primeira audiência com um juiz no estado. Ele precisou pagar uma fiança de US$ 2.000, mas conseguiu ser solto porque o magistrado entendeu que ele não oferecia riscos —o estudante não tem nenhum histórico criminal.

    “Milford é a minha comunidade, né? Eu cresci aqui, é onde tenho amigos, família. No Brasil eu não conheço nada. Eu nem sei o que eu faria no Brasil. Eu estava com medo de ir, de me deportarem. Eu não sabia o que eu ia fazer lá”, conta.

    “Nunca senti tanta tristeza. Nos primeiros dois dias chorei muito, mas depois não mais, tentei manter a calma. Pensava em Deus, falava de Deus, falava com todo mundo, tentava fazer as pessoas darem risada. Todo mundo era trabalhador. De uns 120 que conheci, só dois tinham histórico criminal”, relata.

    Marcelo continua a responder ao processo de deportação, mas sua advogada já disse que buscará regularizar a sua situação e avalia pedir asilo. Ele agora teme pelos pais, que também estão em situação irregular.

    Agentes da imigração chegaram a dizer que queriam, na verdade, prender o pai do estudante, no nome de quem o carro que dirigia quando foi detido estava registrado. Marcelo diz que em momento algum eles perguntaram pelo pai. Por isso, não acredita na versão da polícia.

    O pai do rapaz, João Paulo Gomes Pereira, disse à Folha que também busca regularizar sua situação e que está pegando cartas de vizinhos, do trabalho e de amigos da igreja para comprovar sua boa-fé.

    Marcelo diz que nunca vai se esquecer da experiência no centro de detenção e que se comprometeu com os colegas de cela a relatar as condições em que as pessoas vivem lá. Agora, ele espera continuar nos Estados Unidos. Pensa em tentar estudar direito ou outro curso que o permita trabalhar justamente com imigração, em defesa dos imigrantes. Ele se forma no ensino médio no ano que vem.

    Fonte Matéria

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