Por Ruan Rodrigues
Enquanto muitos escolhem o branco, a praia e o barulho dos fogos para marcar a virada do ano, dois jovens decidiram celebrar de outra forma: subindo o Pico Paraná, o ponto mais alto do Sul do Brasil, para assistir ao primeiro nascer do sol de 2024 do topo da montanha. O que deveria ser um ritual de passagem e contemplação terminou se transformando em um episódio que expôs falhas graves de julgamento, colocou uma vida em risco e reacendeu um debate incômodo sobre individualismo, responsabilidade e laços coletivos.
Roberto Thomaz e Thayane Smith, ambos de 19 anos, iniciaram a trilha com objetivos distintos, ainda que compartilhando o mesmo caminho. Roberto não tinha experiência em montanhismo nem em trilhas de alta exigência física. Thayane, por sua vez, se apresentava como alguém habituada a esse tipo de atividade e costumava definir o montanhismo como parte de seu “estilo de vida”. Coube a ela conduzir o ritmo da subida e as decisões ao longo do percurso.
Segundo relatos reunidos posteriormente, o percurso foi marcado por sinais claros de exaustão física de Roberto. Ainda na subida ele passou mal, vomitou e apresentou sintomas de desidratação. Outros montanhistas que estavam na trilha ofereceram água e alimentos, e o grupo conseguiu chegar ao topo. A descida, porém, foi o momento decisivo, e trágico.
Foi nesse trecho que Thayane seguiu em frente e deixou Roberto para trás. A justificativa viria depois, em entrevistas: ela teria mantido o ritmo porque “é o seu estilo de vida”. Acreditava que o amigo conseguiria acompanhá-la ou que seguiria com outros trilheiros. Não aconteceu. Roberto se perdeu na mata.
Somente no acampamento o grupo percebeu que ele não havia retornado. O montanhista Fábio Sieg Marinz foi quem alertou as autoridades e iniciou as buscas. Mesmo nesse momento, o padrão se repetiu: Thayane voltou à trilha para procurar Roberto, mas novamente se separou, seguindo sozinha por outro caminho. Primeiro, Roberto. Depois, Fábio. A regra básica do montanhismo foi quebrada duas vezes.
Roberto ficou desaparecido por cinco dias. Sobreviveu caminhando cerca de 20 quilômetros pelo leito de um rio, atravessando mata fechada, cachoeiras, perdendo botas e óculos, até chegar a uma fazenda onde pediu ajuda. Foi encontrado extremamente debilitado, desidratado, com escoriações pelo corpo, visivelmente mais magro, mas vivo.
O episódio poderia ter terminado como uma tragédia. Ainda assim, o que mais chamou atenção não foi apenas o risco físico enfrentado por Roberto, mas o discurso que se seguiu. Na entrevista concedida por Thayane, uma palavra se repetia como um refrão: “eu”. “Meu estilo de vida”, “meu erro”, “eu sei que errei”, “eu gosto dessas coisas”, “eu pequei”. As falas soavam menos como reconhecimento de responsabilidade e mais como tentativas de autojustificação. O centro da narrativa permanecia nela.
É nesse ponto que o caso ultrapassa o episódio isolado e se torna sintoma. Não apenas de uma escolha individual, mas de um fenômeno mais amplo. Como observa Jacques Meir, “a Geração Z é substancialmente individualista, não no sentido clássico da acumulação de bens, mas no direito irrestrito ao exercício das identidades”. Trata-se de uma conquista legítima: viver sem rótulos, experimentar, buscar sentido. O problema surge quando o direito ao “eu” se sobrepõe completamente à responsabilidade com o outro.
A amizade, o coletivo, o “nós”, valores que estruturaram outras gerações, aparecem relativizados. Enquanto a família de Roberto vivia dias de angústia, sua parceira de trilha afirmava ter certeza de que ele sobreviveria, ainda que debilitado. O risco era reconhecido, mas aceito como consequência natural do caminho escolhido por ela.
Há ainda outro aspecto que traz questionamentos: a reação das redes sociais. A indignação, compreensível, rapidamente se transformou em linchamento virtual. Comentários agressivos, teorias conspiratórias, acusações de assassinato premeditado, exposição da vida pessoal de Thayane, ameaças. A imprudência virou crime na imaginação coletiva; o erro virou sentença sumária.
Esse comportamento também diz muito sobre nós. Entramos na “mata fechada” das redes sociais sem preparo emocional, seguindo trilhas que nos conduzem não ao topo, mas ao pico da agressividade. O fascínio pelo conflito, pelo vilão da vez, pela possibilidade de transformar alguém em espetáculo, ou até em candidato a reality show, revela uma sociedade exausta, viciada em julgamento e carente de empatia.
Nada disso diminui a gravidade da atitude de Thayane. Convidar alguém inexperiente para uma atividade de risco implica responsabilidade. Abandonar um parceiro em uma trilha é uma falha ética grave. Ela mesma reconhece isso hoje. Mas transformar erro em ódio não nos torna melhores, apenas mais perdidos.
Talvez o maior valor desse episódio esteja justamente na chance de reflexão. O caso teve um final positivo, mas expôs fraturas profundas: o individualismo que ignora o outro, a cultura do desempenho acima do cuidado, e a violência simbólica das redes.
Se este for, de fato, o “estilo de vida” que estamos cultivando, talvez seja hora de recalcular a rota. Aproveitar o ano novo não para subir mais alto sozinhos, mas para construir um caminho mais humano, onde ninguém precise ficar para trás, nem na trilha, nem na vida.

