O incêndio que atingiu a subestação de energia do Hospital Geral Dr. César Cals (HGCC) na manhã desta quinta-feira (13) provocou momentos de angústia e correria. A fumaça que se espalhou rapidamente reacendeu o medo de que o fogo se alastrasse e colocasse pacientes em risco — especialmente gestantes e recém-nascidos.
As cenas que surgiram em seguida, porém, revelaram a força da solidariedade: passageiros, comerciantes e trabalhadores que estavam no entorno se juntaram às equipes do hospital para retirar bebês em incubadoras e auxiliar mães em situação de vulnerabilidade. Uma corrente humana se formou espontaneamente.
Esse gesto coletivo de coragem fez o Ceará lembrar de outra história, tão marcante quanto dolorosa, vivida no mesmo hospital 66 anos atrás.
Em 4 de agosto de 1959, um depósito de éter explodiu e deu início a um incêndio devastador na antiga Casa de Saúde César Cals. Um jovem de 17 anos, João Nogueira Jucá, ouviu a explosão enquanto ia para a aula de ginástica e correu até o local. Sem hesitar, enfrentou o fogo para salvar crianças, funcionários e pacientes. Entrou e saiu do prédio em chamas inúmeras vezes, muito antes de os bombeiros chegarem.
Durante um dos resgates, um cilindro de oxigênio explodiu e o atingiu em cheio. João ainda tentou continuar salvando vidas, mas caiu na calçada, gravemente ferido. Foi internado, lutou por dias, mas morreu em 11 de agosto — ironicamente, o Dia do Estudante. O incêndio matou mais de 25 pessoas, mas a coragem do jovem marcou para sempre a memória da cidade.
Fortaleza o reconheceu como herói. Seu velório arrastou multidões. Ele virou 1º Bombeiro Honorário do Ceará, Patrono dos Estudantes, dá nome a uma medalha da corporação, a uma escola estadual, a um CAPS Infantil e a outros espaços públicos. Todos os anos, no dia 11 de agosto, o hospital celebra uma missa em sua homenagem.
O incêndio de hoje
A tragédia de 1959 não se repetiu. O incêndio desta quinta-feira começou na subestação de energia — uma área externa — e foi controlado em 15 minutos pelo Corpo de Bombeiros. Segundo o major Aloísio, não houve chamas dentro da unidade, apenas fumaça, e nenhuma área assistencial foi atingida.
A falta de energia exigiu a retirada preventiva de 153 mulheres e 117 bebês, que foram encaminhados para outras unidades ao longo de uma operação de oito horas. A Enel instalou geradores para reforçar o funcionamento da UTI Neonatal e outros setores.
O que ficou, mais uma vez, foi a marca de um povo que não hesita em proteger vidas — como João Nogueira Jucá fez há mais de seis décadas.

