O Irã advertiu o presidente americano Donald Trump que qualquer ataque dos Estados Unidos levaria Teerã a contra-atacar e mirar Israel e bases militares regionais dos Estados Unidos como “alvos legítimos”. O presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf, fez o alerta neste domingo (11).
De acordo com a ONG de direitos humanos Hrana, baseada nos EUA, o número de mortos nos protestos que se espalharam por cidades iranianas chegou a 116 desde o dia 28 de dezembro, que marcou o início dos atos. Destes, segundo a entidade, 37 eram membros de forças de segurança. O número de presos, ainda de acordo com a entidade, chega a cerca de 2.300.
Uma outra ONG, a Iran Human Rights, com sede na Noruega, anunciou neste domingo uma contagem de pelo menos 192 mortos, com chance de este número aumentar devido às restrições de comunicação dentro do país. O regime até agora não divulgou números oficiais de vítimas.
“Sejamos claros: no caso de um ataque ao Irã, os territórios ocupados (Israel), bem como todas as bases e navios dos EUA, serão nosso alvo legítimo”, disse Qalibaf, ex-comandante da Guarda Revolucionária, uma tropa de elite do Irã.
Diante desse cenário, Israel está em estado de alerta máximo para a possibilidade de uma intervenção no Irã em apoio às manifestações, disseram em anonimato três autoridades israelenses. No sábado (10), o presidente americano Donald Trump disse que os Estados Unidos estão “prontos para ajudar” os manifestantes, além de outras ameaças de interferência.
Também no sábado, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netayahu, conversou por telefone com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, sobre a possibilidade de intervenção, de acordo com funcionário de Israel que participou da reunião. Uma autoridade do governo americano confirmou que os dois conversaram, mas não informou quais tópicos foram discutidos.
Israel e Irã travaram uma guerra de 12 dias em junho do ano passado, na qual os EUA se juntaram a Tel Aviv e promoveram ataques aéreos contra instalações nucleares do regime. Teerã retaliou, disparando mísseis contra uma base aérea americana no Qatar.
As autoridades iranianas intensificaram os esforços para conter os distúrbios que se espalharam pelo Irã desde 28 de dezembro.
Os protestos começaram em resposta à inflação crescente, antes de se voltarem contra o establishment clerical que governa desde a Revolução Islâmica de 1979. O regime acusa os EUA e Israel de fomentarem os atos. Neste domingo, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, falará em entrevista à TV estatal sobre os planos do regime diante das demandas populares, como reformar o sistema monetário.
O fluxo de informações do Irã foi prejudicado por um apagão de internet imposto pelas autoridades desde quinta-feira (8). O observatório de monitoramento da internet Netblocks relatou que os níveis de conectividade nacional permaneceram em cerca de 1% do normal.
Um vídeo nas redes sociais postado no sábado (10) mostrava grandes multidões reunidas no bairro de Punak, em Teerã, à noite, batendo ritmicamente nos corrimãos de uma ponte ou outros objetos metálicos em um aparente sinal de protesto.
A mídia estatal iraniana transmitiu procissões fúnebres em cidades do oeste iraniano, como Gachsaran e Yasuj, de membros das forças de segurança mortos nos protestos.
A TV estatal relatou que 30 membros das forças de segurança seriam enterrados na cidade central de Isfahan, e que seis membros das forças de segurança foram mortos em Kermanshah, no oeste. A mídia oficial também relatou que uma mesquita foi incendiada por manifestantes em Mashhad, no nordeste, na noite de sábado.
A Guarda Revolucionária acusou no sábado “terroristas” de atacarem instalações de segurança.
As autoridades iranianas já sufocaram outras ondas de protestos, mais recentemente em 2022, devido à morte sob custódia de Mahsa Amini, acusada de violar códigos de vestimenta.
Uma alta autoridade de inteligência dos Estados Unidos descreveu no sábado a situação no Irã como um “jogo de resistência”. A oposição estava tentando manter a pressão até que figuras-chave do regime fugissem ou mudassem de lado, enquanto as autoridades tentavam semear medo suficiente para limpar as ruas sem dar aos Estados Unidos justificativa para intervir, disse a autoridade.
Israel não sinalizou desejo de atuar na crise, com as tensões entre os dois arqui-inimigos elevadas devido às preocupações de Tel Aviv com os programas nuclear e de mísseis balísticos do Irã.
Em uma entrevista à revista The Economist publicada na sexta-feira (9), Netanyahu disse que haveria consequências horríveis para o Irã se atacasse Israel. Aludindo aos protestos, ele disse: “Quanto a todo o resto, acho que devemos ver o que está acontecendo dentro do Irã”.

