O Departamento de Justiça dos Estados Unidos divulgou nesta sexta-feira, 30, milhões de novos documentos das investigações contra o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein, morto em 2019.
Ao todo, três milhões de páginas de arquivos, 180 mil imagens e 2 mil vídeos vieram a público.
Essa é a maior quantidade de informações liberadas pelo governo americano sobre o caso. Uma lei do Congresso dos EUA, sancionada pelo presidente Donald Trump, determinava a publicidade de todos os documentos até 19 de dezembro, mas só agora a medida foi cumprida.

Entre os arquivos, há e-mails entre Epstein e figuras públicas influentes, como Trump, Elon Musk, Bill Gates e o ex-príncipe Andrew.
Anotações sobre supostas relações extraconjugais de Bill Gates
Entre os documentos, há anotações de Epstein sobre o bilionário cofundador da Microsoft Bill Gates, sugerindo que ele mantinha relações sexuais extraconjugais.
O criminoso sexual enviou para si mesmo essas notas por e-mail em julho de 2013. Na época, Epstein tentou intermediar uma negociação entre a Fundação Gates e a instituição financeira JPMorgan Chase, sem sucesso.
Em entrevista à CNN em 2021, Gates chamou sua relação com Epstein de “um grande erro” e minimizou suas interações com o criminoso. Segundo o fundador da Big Tech, os dois jantaram diversas vezes na esperança de Gates conseguir doações para sua fundação.

Em uma das anotações, escrita como se fosse uma carta de demissão da Fundação Gates, Epstein afirma ter ajudado o bilionário a conseguir medicamentos “para lidar com as consequências do sexo com garotas russas”. Ele também alega ter facilitado encontros de Gates com mulheres casadas.
Em outro e-mail, o criminoso critica Gates por “desconsiderar e descartar nossa amizade” de seis anos. Ele acusa o fundador da Microsoft de abandoná-lo para preservar sua reputação. Também alega que o bilionário teria tentado encobrir uma infecção sexualmente transmissível de sua então esposa, Melinda.
Elon Musk perguntou sobre “festas mais selvagens” na ilha
O bilionário e ex-conselheiro de Trump na Casa Branca Elon Musk também aparece nos documentos.
Musk enviou um e-mail para Epstein em novembro de 2012 e outro no final de 2013 para combinar uma viagem à ilha caribenha do financista. No primeiro, perguntou ao financista “em que dia/ noite acontecem as festas mais selvagens na sua ilha?”. Musk já havia afirmado que recusou tentativas de Epstein de convencê-lo a visitar uma das duas ilhas que Epstein possuía – Great St. James e Little St. James, próximas às Ilhas Virgens Britânicas. Little St. James foi um epicentro dos abusos cometidos por Epstein contra meninas e jovens mulheres durante décadas.
Em uma troca de e-mails de 2012, Epstein perguntou a Musk quantas pessoas ele gostaria de levar de helicóptero até Little St. James. “Provavelmente só eu e a Talulah”, respondeu Musk em 2012, referindo-se à sua então parceira, a atriz Talulah Riley. “Qual será o dia/noite da festa mais animada da nossa ilha?”
Os e-mails, porém, não demonstram se Musk chegou a realizar as visitas.
Em 13 de dezembro de 2013, Musk enviou um e-mail para Epstein: “Estarei na região das Ilhas Virgens Britânicas/St. Barth durante as festas de fim de ano. Há alguma época boa para visitar?”
Epstein respondeu dois dias depois, dizendo que o início do ano novo seria bom, acrescentando: “sempre há espaço para você”. No dia de Natal, Epstein escreveu em outro e-mail: “os dias 2 ou 3 seriam perfeitos. Irei buscá-lo”.
Musk respondeu inicialmente que precisaria voltar para Los Angeles na noite de 2 de janeiro, antes de dizer que poderia adiar sua partida por um dia.
Menções de denúncias contra Trump
Outro documento divulgado é uma lista do FBI sobre uma dúzia de denúncias de envolvimento de Trump com Epstein, incluindo acusações de abuso sexual contra os dois.
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Em uma denúncia, feita por um contato anônimo com o FBI, uma mulher relatou que uma amiga ‘de 13 ou 14 anos’ foi forçada a fazer sexo oral em Trump. Segundo a denunciante, sua amiga tinha “13 ou 14 anos” na época dos fatos e relatou ter mordido o pênis de Trump. Segundo o relato, a amiga riu da situação e foi agredida pelo empresário. A mulher fala que o caso aconteceu “há 35 anos”, mas a data da denúncia não está especificada no documento.
As denúncias, porém, não contêm evidências que as comprovem.
Elas foram registradas por meio do Centro Nacional de Operações contra Ameaças do FBI, que recebe um grande volume de ligações de todo o país e permite que cidadãos enviem informações sobre crimes à agência.
O vice-procurador-geral dos EUA, Todd Blanche, afirmou à imprensa nesta sexta que não há material nos arquivos que justifique novas acusações.
“Alguns dos documentos contêm alegações falsas e sensacionalistas contra o presidente Trump que foram enviadas ao FBI pouco antes da eleição de 2020″, afirma o Departamento de Justiça.
Trump nega qualquer conhecimento sobre os crimes sexuais cometidos por Epstein.
E-mail de Epstein sobre Trump
Outro documento divulgado foi uma troca de e-mails de Epstein para a advogada Kathy Ruemmler, que trabalhou na Casa Branca de 2011 a 2014, no governo de Barack Obama.
A conversa ocorreu em maio de 2016, quando Trump era pré-candidato à presidência.
Na mensagem, Epstein menciona a acusação de uma das meninas aliciadas por ele contra Trump. A jovem teria dito que Trump teve relações com ela quando era menor de idade na casa de Epstein.
O criminoso diz a Kathy que Trump foi procurado pela defesa da vítima.
A advogada responde com uma sugestão de declaração para Trump.
A investigação sobre o caso não foi levada adiante.
Trump nega qualquer irregularidade envolvendo Epstein e não foi acusado de nenhum crime pelas vítimas do criminoso.
Epstein enviou dinheiro para brasileiro
Outra troca de e-mail mostra que Epstein enviou £ 10 mil em 2009 para o brasileiro Reinaldo Avila da Silva, atualmente marido do lorde britânico Peter Mandelson — eles se casaram em 2023.
Em um e-mail ao criminoso, Silva detalha os custos de um curso de osteopatia e agradece por “qualquer ajuda que você possa me dar”.
Em outra conversa de 2009, Mandelson pede para se hospedar em uma das propriedades de Epstein. Na época, o criminoso cumpria prisão por prostituição de uma menor de idade.
Em 2024, Mandelson foi nomeado embaixador do Reino Unido nos EUA. Ele foi demitido menos de um ano depois, devido à revelação de que tiapoiara Epstein após a condenação.
Mandelson afirma se arrepender da amizade, diz que nunca presenciou nenhuma irregularidade e aponta que “acreditou em suas mentiras”.
Visita de secretário de Comércio de Trump
Outro que visitou a ilha de Epstein no Caribe foi Howard Lutnick, empresário bilionário que hoje é secretário de Comércio do presidente Trump.
Lutnick enviou um e-mail a Epstein em dezembro de 2012 perguntando se ele e sua família poderiam visitá-lo para uma refeição.
Um almoço foi marcado para 23 de dezembro de 2012. “Foi um prazer vê-lo”, diz uma mensagem de Epstein enviada no dia seguinte a Lutnick.
Nesta sexta-feira, 30, no entanto, Lutnick negou ao New York Times que o encontro tenha acontecido. “Não passei nenhum tempo com ele.”
Ex-príncipe Andrew convidou Epstein para ir ao Palácio de Buckingham
Os e-mails liberados pelo Departamento de Justiça dos EUA incluem fatos relacionados ao homem anteriormente conhecido como Príncipe Andrew. No ano passado, Andrew foi destituído de todos os títulos reais e expulso da residência oficial em Windsor devido ao vínculo com Epstein. O ex-príncipe, que agora é conhecido simplesmente como Andrew Mountbatten-Windsor, nega ter cometido crimes.
Constam dos arquivos um convite feito pelo então príncipe a Epstein para jantar no Palácio de Buckingham; uma oferta de Epstein para apresentar ao seu correspondente uma mulher russa de 26 anos e fotos que parecem mostrar Andrew ajoelhado sobre uma mulher não identificada deitada no chão.
A publicação das memórias póstumas da australiana-americana Virginia Giuffre, que acusou o príncipe de tê-la abusado sexualmente em diversas ocasiões quando ela ainda era menor de idade, alimentou uma onda de revolta no Reino Unido. O ex-príncipe alega inocência.
Com informações de O Estadão

